Ulisses, de Alfred Tennyson (2014 e 2019)

Alfred Tennyson, fotografado por Julia Margaret Cameron, 1869

Em 6 outubro de 1833, Alfred Tennyson (1809-1892) ficou devastado com a notícia da morte prematura de seu melhor amigo Arthur Henry Hallam (1811-1833), aos 22 anos, de um acidente vascular cerebral, fato que ocorrera em 15 de setembro do mesmo ano, e que repercutiu durante a maior parte de sua vida.

Dezessete anos depois, ele escreveu um poema longo (em 133 seções de quadras de pentâmetro iâmbico com rimas alternadas, contando o prólogo e o epílogo), uma espécie de Divina Comédia particular, sobre todo o seu processo interior de luto e consolação, intitulado In Memoriam A.H.H. Todavia, na imediata repercussão da tragédia, ele escreveu o poema “Ulisses”, aqui traduzido, conforme as memórias recolhidas por seu filho Hallam Tennyson (há indícios também de que ele já averia iniciado esboços o poema em junho de 1833, sendo anterior à morte de Arthur Hallam):

“Ulisses, disse meu pai, foi escrito logo após a morte de Arthur Hallam, e deu o meu sentimento da necessidade de seguir adiante, e de enfrentar a luta da vida talvez mais simplesmente do que qualquer coisa de ‘In Memoriam’.”

“Ulysses, my father said, was written soon after Arthur Hallam’s death, and gave my feeling about the need of going forward, and braving the struggle of life perhaps more simply than anything in ‘In Memoriam’.” (Hallam Tennyson – Alfred Lord Tennyson: A Memoir, V1, p. 196)

Outro depoimento de Tennyson a James Knowles sobre a escrita de Ulisses:

“Há mais sobre mim em ‘Ulisses’, que foi escrito sob o sentimento de perda e de que tudo o que se foi, mas que a vida precisaria ainda ser lutada até o fim.” (James Knowles – Uma Reminiscência Pessoal)

“There is more about myself in ‘Ulysses’, which was written under the sense of loss and that all had gone by, but that still life must be fought to the end.” (James Knowles – A Personal Reminiscence)

O poema é um monólogo dramático (gênero bastante usado e aprimorado na poesia inglesa da segunda metade do século XIX, notadamente por Tennyson e Browning), escrito em 70 versos brancos (pentâmetros iâmbicos sem rima, aqui traduzidos em decassílabos brancos).

Não é claro definir a quem (se a alguem) Ulisses se dirige em seu monólogo. Pode-se interpretar como um solilóquio que se transforma em um endereçamento ao público, à maneira que introduz seu filho e se desloca para a beira do mar onde convoca seus marinheiros. Dessa forma, a linguagem comparativamente direta e honesta do primeiro movimento é contraposta pelo tom orientado mais politicamente dos outros dois.

O Ulisses de Tennyson segue Homero (canto IX da Odisseia, vv. 100-137), no usando por base o episódio em que Odisseu aprende com o fantasma de Tirésias que, após matar os pretendentes de Penélope, já de volta a Ítaca, terá que empreender uma última viagem marítima. Também há a referência ao Canto XXVI do Inferno de Dante, que faz Ulisses recontar essa jornada, no meio das chamas do oitavo círculo, e oitavo bolgia (dos conselheiros fraudulentos), cumprindo sua punição (contrapasso) por haver roubado o Paládio de Atena e ter sugerido a construção do cavalo de Troia.

O narrador se move por quatro estágios emocionais que são autorreveladores, começando com a sua rejeição da vida vazia à qual retornara em Ítaca, encarando sua velhice, à afeiçoada recordação de seu passado heroico (afinal, foram dez anos da Guerra de Tróia e mais dez tentando regressar, em meio a todo tipo de tribulações); ao reconhecimento da validade do método de governo de Telêmaco, para as funções que lhe caberiam, e com base nisso, ao planejamento de uma nova viagem.

Apresento aqui duas versões, minha tradução de 2014 (Ulisses foi a minha primeira tentativa séria de traduzir poesia inglesa), e um retrabalho atual de 2019. Muito do que intentei produzir em efeitos de som e verso, e aquilo que acredito serem falhas, são fruto da minha própria imaturidade à época, e falta de um exame mais minucioso do poema, do significado das palavras e da maneira pelas quais elas podem ser transformadas em língua portuguesa.

Acredito que a prática tenha inculcado a paciência e a seriedade de não se contentar apenas com uma solução numérica ou espacial (que é apenas o primeiro estágio, já que qualquer decassílabo que não é o melhor decassílabo, ou aquele que entregue maior fluidez aos versos vizinhos), mas sim de priorizar transmitir o maior número de informação do idioma de origem no idioma alvo.

Para os que têm a paciência e o interesse em comparar traduções de tradutores diferentes, que usualmente cobrem um espectro de tempo maior do que uma geração, espero que seja também útil poder perceber as mudanças na mente e no ofício do tradutor com poucos anos de diferença, e um pouco mais de prática.

ULISSES (2019)

Pouco serve que um rei inerte assim,
No lar quieto, em meio à escarpa infértil,
Unido à esposa idosa, eu ceda e esmole
Leis desiguais a um bando de selvagens
Que soma, dorme, engorda, e não me vê.
Eu preciso partir: Beber da vida
Até a borra; pois sempre desfrutei,
Sempre sofri, com quem me amou, e só;
Em terra firme, ou nas borrascas bruscas
Com que as pluviosas Híades irritavam
O mar sombrio: Eu me tornei um nome;
Sempre errante, com coração ardente,
Muito vi e conheci; cidades de homens
E modos, climas, conselhos, governos,
Por todos sempre honrado, sem desdém;
Traguei da guerra o gozo com meus pares,
Nos troantes plainos da ventante Tróia.
Eu sou parte de tudo o que encontrei;
Mas a experiência é um arco que abre o brilho
De um mundo inexplorado, cuja margem
Se afasta sempre e sempre ao meu mover.
Que tedioso é pausar, fazer um fim,
Enferrujar, sem reluzir agindo!
Como se a vida fosse respirar.
Vida e mais vida ainda é bem pouco, e desta
Pouco me resta: mas cada hora é salva
Desse silêncio eterno, um algo a mais,
Trazendo coisas novas; vil seria
Por uns três sóis me amontoar guardado,
A alma grisalha ardendo por seguir
O saber, como um astro que se afunda,
Além do limiar da mente humana.
Este aqui é o meu filho, o meu Telêmaco,
A quem relego o cetro e a ilha – É o meu
Bem-amado, e astuto no exercício
Deste labor, prudente amansador
De um povo rude, e aos poucos, suavemente,
Vai sujeitá-los ao que é bom e útil.
Irrepreensível, centrado na esfera
Dos deveres comuns, irá cumprir
Ofícios de ternura, com tributos
De adoração aos deuses familiares,
Quando eu me for. Ele obra o dele, eu o meu.
Lá jaz o porto; a nave estufa a vela:
Ensombram amplos mares negros. Nautas,
Almas leais a mim, de lida e luta –
Que acolheram, alegres, o trovão
E o sol ardente, opondo os corações
E as frontes livres – nós estamos velhos;
A velhice ainda tem sua honra e luta;
A morte encerra tudo: algo de nobre
Ainda pode ser feito, antes do fim,
Sem lutas descabidas com os Deuses.
As luzes já cintilam dos rochedos:
O longo dia míngua: a lua lenta
Ascende: o abismo geme em vozes. Venham,
Não tarda a busca por um mundo novo.
Desatracai, e em ordem fustigai
As sonoras esteiras; que eu intento
Singrar além do sol poente e os banhos
Dos astros do ocidente, até morrer.
Pode ser que os abismos nos afoguem,
Que nas Ilhas Afortunadas nós
Vejamos nosso aliado, o grande Aquiles.
Muito se foi, mas muito resta; e mesmo
Não sendo mais a força que movia
A terra e o céu; nós somos o que somos;
Heróicos corações unidos, fracos
Por tempo e fado, e fortes para assim
Lutar, buscar, alçar, e não ceder.

ULISSES (2014)

De nada serve a um rei ficar inerte,
No lar quieto, em meio à rocha infértil,
Unido a esposa idosa, eu doo e imponho
Iníquas leis a um bando de selvagens
Que soma, e dorme, e engorda, e não me vê.
Estou inquieto: Sorverei da vida
A última gota: Sempre gozei muito,
Sofri muito, com todos que me amaram,
E só; em terra firme, ou arrastado
Por negras correntezas irritadas
Pelas Híades: Transformei-me em nome;
Errante sempre, com ardente impulso
Muito vi e conheci; cidades de homens
E costumes, conselhos, climas, regras,
E a mim mesmo, por todos sempre honrado.
Traguei da pugna o gozo junto aos meus,
Longe na Troia dos ventantes plainos.
Sou parte, enfim, de tudo que encontrei;
A experiência é um arco pelo qual
Vislumbro um mundo inexplorado, cuja
Margem se afasta sempre ao meu mover.
Que tolice o parar, o dar um fim,
Enferrujar assim, sem uso e brilho!
Como se respirar fosse viver.
Quão pouco, vidas sobre vidas! Desta,
Pouco resta: mas cada hora é salva
Do que é silêncio eterno, um algo além,
Arauto do que é novo; vil seria
Guardar-me, agrisalhando por três sóis,
A alma cinzenta ardendo por seguir
O saber como um astro que se afoga,
Além do limiar do pensamento.
Este é o meu filho, meu fiel Telêmaco,
Para quem eu relego o cetro e a ilha –
Meu bem-amado, hábil a cumprir
Esse labor, prudente domador
De um povo rude, e mansamente, aos poucos,
Vai sujeitá-los ao que é bom e útil.
Irreprochável, centra-se na esfera
Dos deveres comuns, decente para
Sutis ofícios, prestará tributos
De justa adoração aos nossos deuses
Quando eu me for. Ele obra o dele, eu o meu.
Lá jaz o porto; O barco estufa as velas:
Ensombram grandes mares. Meus marujos,
Almas que lutam, sofrem junto a mim –
Que, jubilosas, acolheram sempre
Trovão e sol ardente, opondo frente
E fronte livres – nós estamos velhos;
Na velhice, persiste a honra e a luta;
A morte é o fim: mas antes, algum feito
Notório e nobre está por se fazer,
Sem impróprios conflitos com os Deuses.
Luzes estão a cintilar nas rochas:
O dia míngua: a lua ascende: o abismo
Gemendo em muitas vozes. Venham, homens,
Não tarda a busca por um novo mundo.
Partam, em ordem todos, e fulminem
As sonoras esteiras; Meu intento
É navegar além-poente, e sob
Estrelas do ocidente, até morrer.
Talvez vorazes golfos nos devorem,
Ou então, nas Afortunadas Ilhas,
Vejamos grande Aquiles, caro a nós;
Mesmo perdendo muito, há muito à frente,
Ainda que como antes não movamos
A Terra e o Céu; O que nós somos, somos;
O mesmo heroico peito temperado,
Fraco por tempo e fado, mas forte a
Lutar, buscar, achar, e não ceder.

ULYSSES

It little profits that an idle king,
By this still hearth, among these barren crags,
Match’d with an aged wife, I mete and dole
Unequal laws unto a savage race,
That hoard, and sleep, and feed, and know not me.
I cannot rest from travel: I will drink
Life to the lees; all times I have enjoy’d
Greatly, have suffer’d greatly, both with those
That loved me, and alone; on shore, and when
Thro’ scudding drifts the rainy Hyades
Vext the dim sea: I am become a name;
For always roaming with a hungry heart
Much have I seen and known; cities of men
And manners, climates, councils, governments,
Myself not least, but honour’d of them all;
And drunk delight of battle with my peers,
Far on the ringing plains of windy Troy,
I am a part of all that I have met;
Yet all experience is an arch wherethro’
Gleams that untravell’d world, whose margin fades
For ever and for ever when I move.
How dull it is to pause, to make an end,
To rust unburnish’d, not to shine in use!
As tho’ to breathe were life. Life piled on life
Were all too little, and of one to me
Little remains: but every hour is saved
From that eternal silence, something more,
A bringer of new things; and vile it were
For some three suns to store and hoard myself,
And this gray spirit yearning in desire
To follow knowledge like a sinking star,
Beyond the utmost bound of human thought.
This is my son, mine own Telemachus,
To whom I leave the scepter and the isle—
Well-loved of me, discerning to fulfil
This labour, by slow prudence to make mild
A rugged people, and thro’ soft degrees
Subdue them to the useful and the good.
Most blameless is he, centred in the sphere
Of common duties, decent not to fail
In offices of tenderness, and pay
Meet adoration to my household gods,
When I am gone. He works his work, I mine.
There lies the port; the vessel puffs her sail:
There gloom the dark broad seas. My mariners,
Souls that have toil’d, and wrought, and thought with me—
That ever with a frolic welcome took
The thunder and the sunshine, and opposed
Free hearts, free foreheads—you and I are old;
Old age hath yet his honour and his toil;
Death closes all: but something ere the end,
Some work of noble note, may yet be done,
Not unbecoming men that strove with Gods.
The lights begin to twinkle from the rocks:
The long day wanes: the slow moon climbs: the deep
Moans round with many voices. Come, my friends,
‘Tis not too late to seek a newer world.
Push off, and sitting well in order smite
The sounding furrows; for my purpose holds
To sail beyond the sunset, and the baths
Of all the western stars, until I die.
It may be that the gulfs will wash us down:
It may be we shall touch the Happy Isles,
And see the great Achilles, whom we knew.
Tho’ much is taken, much abides; and tho’
We are not now that strength which in old days
Moved earth and heaven; that which we are, we are;
One equal temper of heroic hearts,
Made weak by time and fate, but strong in will
To strive, to seek, to find, and not to yield.

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